8 de setembro de 2020

Tabu (cont.)

Calando os críticos menos entusiastas (incluindo este humilde escriba), Cristiano Ronaldo marca dois golos, o necessário e suficiente para fazer o muito positivo resultado final na Suécia. Resta saber se ainda há uma equipa ou a administração pública de um mito. Até porque, mesmo em cenário de pandemia, os oráculos de serviço continuam a promovê-lo como obrigatória encarnação da "portugalidade". Será que o facto de termos ganho à Suécia justifica tamanha histeria ideológica?

7 de setembro de 2020

Conto

— A gata acolhe o nosso amor, devolve-o, nunca abdicando dos requebros selvagens do seu ser. Mostrar-nos que não a dominamos é, talvez, a maior prova de amor — expor a ilusão pueril da posse. Humanos e imperfeitos, trabalhamos para aceitar a sua narrativa.

6 de setembro de 2020

Que lógica?

— Sonhar sabendo que é sonho e, apesar disso, temer duplamente as ameaças que me assombram, adquirindo perversa configuração material. Sonho assim por alguma razão, tecida entre medos vividos e catástrofes imaginadas, mas a sua lógica escapa-me — como num sonho.

Empatia

Empatia, palavra mágica destes tempos de tantos laços quebrados, outros ensaiados, muitos desejados, muitos impossíveis. Na secção de Opinião de The New York Times, Molly Worthen, professora de História e jornalista freelance, escreve sobre os dramas da empatia em cenário de pandemia ['The Trouble With Empathy']. Artigo obviamente mobilizador que nos recoloca perante os modos que nos levam, ou não, a reconhecer as singularidades dos outros. Mais ainda: perguntando que modelos de pedagogia, nomeadamente na escola, nos podem abrir portas para tais singularidades— o artigo apresenta mesmo uma sugestiva entrada: "Podemos realmente ser ensinados a sentir a dor de cada um dos outros?"
Começando por referir as experiência por que está a passar a sua filha no jardim infantil, Worthen destaca a importância dos livros na construção da empatia, isto é, no conhecimento e reconhecimento da história irredutível de cada ser que nos surge como estranho, ou melhor, exterior ao nosso universo. Celebrando o primitivo e maravilhoso acto de leitura, portanto.
E, no entanto, tudo isto parece decorrer da análise de um universo em que o livro se apresenta como elemento "natural" de uma cultura global subtitamente esvaziada do assombramento social das "redes". A explanação desenvolve-se, assim, omitindo o facto de vivermos num mundo que, através de milhares de milhões de polegares ao alto, impôs a mais agressiva ilusão empática: dispondo do mapa etéreo de infinitos links virtuais, teríamos encontrado a comunicação automática e ideal, fundando uma comunidade de empatia universal, cândida e irrevogável. Ainda que com intenso e comovente amor pelos livros, como é possível pensar a nossa relação com o outro, ignorando isto?

5 de setembro de 2020

Tabu

Portugal, 4 - Croácia, 1 — mesmo sem espectadores, o futebol detém esse poder de transfigurar a pandemia em efeito colateral. Perversamente, a selecção portuguesa de futebol passou a jogar francamente melhor sem Cristiano Ronaldo. Na filosofia dominante no futebol, isso diz-se através de uma maravilhosa derivação retórica: sem Ronaldo, a selecção "joga diferente".

4 de setembro de 2020

Talking heads

Antes do COVID-19, durante o COVID-19, por certo no pós-COVID-19, os nossos métodos correntes de encenação e auto-encenação — dos noticiários televisivos ao Instagram, passando pelos videos dos jornais — transformaram-nos em locutores do lugar que temos, ou imaginariamente ocupamos, no tecido social. Somos todos talking heads, uns profissionais, outros incautos, tendo integrado a respectiva postura como o supra-sumo da comunicação com os outros. Dir-se-ia uma brincadeira de jardim infantil: inventar um tele-jornal e fazermos de locutor — com um ecrã de cartolina colorida.
Curiosamente, a palavra locutor caíu em desuso — e há até quem a encare como um insulto mal disfarçado. Ironicamente, a sua objectividade é contundente: diluímo-nos no exercício da locução, o nosso clímax comunicacional confunde-se com a leitura do tele-ponto. Dir-se-ia que tudo conflui no know how de uma pose. Provavelmente, era para isto que Marshall McLuhan nos queria avisar quando dizia que "o meio é a mensagem".

2 de setembro de 2020

Linguagens

No dia 31 de Agosto, a editora Cotovia anunciou o seu encerramento no final do ano.
A 1 de Setembro, Cristina Ferreira divulgou o título do seu novo programa televisivo.
Não há nenhuma relação de causa e efeito entre as duas notícias. Tão só a evidência cruel de que o nosso presente se faz da coexistência de tais factos — com a pandemia a desenhar um cenário em que, por razões de sobrevivência, fingimos que falamos uma só linguagem.

1 de setembro de 2020

A nova ética

Tu podes ser o meu vírus, eu posso ser a tua infecção — a nova ética social envolve uma desmesurada crueldade. E também um cristalino didactismo. A saber: nenhuma relação social é um dado adquirido.

Profissão

— Solitário como uma gata. Livre, quero eu dizer.

Da solidão

Pelos mais variados contextos, das conversas privadas aos desabafos do Instagram (hoje em dia, uma coisa parece poder esgotar-se na outra), podemos detectar os sinais, ora esparsos, ora contundentes, de uma revelação que nos pode ajudar a definir a crueldade destes dias sem fim: muitos cidadãos reconhecem — e, na maior parte dos casos, celebram — o facto de, através do COVID-19, da pandemia e do confinamento, terem redescoberto uma solidão de que estavam esquecidos. Em alguns casos, há mesmo uma descoberta radical: não sabiam que tal solidão existia, sobretudo que existia para lá do maniqueísmo do medo. Há qualquer coisa de irremediavelmente patético nestes gestos confessionais: do mundo unificado e unívoco em que estávamos "sempre todos juntos" através do infantilismo promovido pelas redes (ditas) sociais, passámos para um arquipélago global de ilhas filosofantes, cada uma delas com o seu solitário habitante. Talvez haja, aqui, alguma forma de redenção. Ou apenas o reconhecimento implícito, porventura involuntário, de que a solidão é mais criativa que a estupidez.