Assistindo às atribulações sexuais de qualquer telenovela, dir-se-ia que já ninguém sente nada que não se reduza ao mais triste maniqueísmo hormonal. Já era assim antes da pandemia, continua a ser assim durante a pandemia. Como se fosse imperioso matar Stendhal outra vez.
24 de setembro de 2020
23 de setembro de 2020
E-mails
Entre a surpresa e o protesto, manifestando cordialidade ou espírito ofendido, alguém responde a um e-mail nosso, chamando a atenção para o facto de não termos abordado o assunto que motivou a troca de informações. Na verdade, a reacção não tem qualquer sustentáculo racional: a resposta está lá, nos parágrafos finais — pura e simplesmente, o nosso interlocutor não leu.
O episódio repete-se, torna-se regular e, apetece dizer, viral. Poderia ser um sinal de ansiedade deste presente pandémico, um sintoma da instabilidade emocional do quotidiano assombrado pelos rituais de resistência ao COVID-19. Mas não: o "vício" é anterior, foi-se instalando no funcionamento (profissional ou privado) de muitas pessoas como uma espécie de perversão comunicacional de quem já não sabe o que é escrever uma carta e que, em última instância, foi condicionado a "pensar" através das medidas do Twitter e das abreviaturas codificadas dos SMS.
Dito de outro modo: o cidadão comum nunca lidou com tantos textos e nunca leu tão pouco. Culturalmente, a sobrecarga de linguagens gerou — e sustenta — uma nova forma de analfabetismo. Não ler as últimas linhas passou a alimentar a ideia de que somos mais rápidos do que a escrita, a ponto de dispensarmos o conhecimento dos seus limites.
20 de setembro de 2020
Primordial
Qualquer afirmação pitoresca, provocatória ou apenas linearmente estúpida de um político tem garantido um eco interminável no espaço mediático. Será esta uma forma de pandemia que desconhecemos? Ou que integrámos como coisa natural? Ou que, ingenuamente, julgamos que não se traduz em efectivo poder político?
Em boa verdade, nem sequer serão essas as questões a colocar. Talvez seja útil regressar à crueza primordial, ao problema crucial — o que é ou pode ser uma existência comunitária — e perguntar: porque aceitamos viver tão mal?
19 de setembro de 2020
Alucinação
— A doença promove uma alucinação de que não fujo, aceitando a nova forma de intimidade que nela, e através dela, se configura. O teu corpo não está aí, mas eu estou aqui com o teu corpo alucinado. É uma forma de amor, sabes?
17 de setembro de 2020
Depois de Noé
O COVID-19 trouxe uma revalorização ou, mais exactamente, uma proliferação da palavra "natureza". Desde logo, porque por muitos discursos passou a circular a noção bélica (apetece dizer: administrativa) segundo a qual a natureza funciona como uma entidade que, ciclicamente, obedecendo às determinações racionais de um qualquer comité imaginário, uma espécie de resto simbólico da Arca de Noé, reage aos desmandos dos humanos, vingando-se com pandemias, tornados e outras contundentes atribulações. Como complemento, proliferam também as militâncias, das cientificamente elaboradas até às derivações "espirituais" dos restos requentados de uma New Age mais ou menos intemporal, que proclamam a necessidade, mais do que isso, a urgência de os mesmos humanos assumirem modelos de comportamento que, para lá da defesa dos elementos naturais, funcionem como redescoberta e revalorização da nossa dimensão natural — dos políticos mais sensatos à mais desavergonhada publicidade, tudo isso circula no quotidiano como uma nuvem virtual (mais uma...) cuja chuva abençoada recebemos com alegria ou desencanto.
Como é óbvio para toda a gente (Donald Trump insiste em cultivar-se como excepção), nada disso é estranho aos dramas que assolam as paisagens, cidades incluídas, do nosso querido planeta. E só mesmo por ignorância, estupidez ou cinismo, porventura através da conjugação dessas três duvidosas qualidades, será possível negar que, da delapidação da riqueza dos oceanos ao ar que respiramos, a humanidade enfrenta problemas que estão longe de se resolver apenas através da separação do lixo caseiro em recipientes de três cores.
Acontece que tudo isto tende a funcionar como se, de facto, a n-a-t-u-r-e-z-a existisse como uma espécie de vinheta bíblica, automaticamente reconhecível e identificável na sua verdade primordial (divina, por certo). A sua pureza pervertida pela nossa irresponsabilidade colectiva seria, ou será, reposta através de ambiciosos programas de defesa do ambiente, pontuados por concertos de boa vontade em que os símbolos da música clássica e os embaixadores do pimba se cruzam em duvidoso ecumenismo.
O mais difícil — e tanto mais quanto, socialmente, passámos a menosprezar tal hipótese — será reconhecer que não há dois lados mecanicamente divididos, um dos quais seria a "natureza", o outro a vida "social". Historicamente, sabemos que qualquer sociedade se faz também através de uma determinada visão dos elementos a que chamamos naturais. Dito de outro modo: a natureza é o primeiro índice da nossa cultura.
Como cidadãos responsáveis, podemos comprar o novo automóvel 100% eléctrico, amigo do ambiente — o certo é que tanto não basta para que a gata que está aqui a dormir deixe de ser um enigma desafiante.
13 de setembro de 2020
Em família
O prolongamento da situação de pandemia gerou um novo alerta: as famílias devem redobrar os cuidados de protecção, sobretudo quando se cruzam os seus elementos que vivem em casas e localidades diferentes. Dito em bom português: desaconselham-se os almoços em família. Eis uma maneira didáctica, eventualmente cruel, de nos lembrar uma evidência que gostamos de esquecer ou minimizar: a vida familiar é um elemento fulcral da vida social.
10 de setembro de 2020
20,21 € — um conto moral *
Era uma vez um país em pandemia que, a acreditar nas notícias que circulam, possui um sistema bancário que, em anos recentes, conseguiu a proeza de perder (ou alienar, ou desviar, ou colocar em parte incerta...) alguns milhões de euros. Aliás, corrige o narrador: milhares de milhões de euros.
Nesse mesmo país, num dia quente do final do Verão, um cidadão incauto acorda com os sinais sonoros das maravilhas que a tecnologia amistosamente lhe faculta: por SMS e voicemail (as designações anglo-saxónicas são comoventes, a começar pela sigla de simétrica elegância do Short Message Service) recebe a informação cordial de que a sua conta bancária apresenta um saldo negativo.
Não são milhões. Não são milhares. Já agora, observa o narrador surpreendido com as peripécias da narrativa que lhe calhou revelar ao mundo, nem sequer são centenas. Mas não deixa de ser uma revelação chocante, capaz de abalar as estruturas morais da nação: o défice é de nada mais nada menos que 20 euros e 21 cêntimos. 20,21 €: eis o preço que importa pagar para nos salvar do apocalipse.
O banco, delicadamente, solicita o provisionamento da conta. Embora as mensagens não comentem tal hipótese, o cidadão compreende que, através do mesmo método, os milhões desbaratados irão ser recuperados. Por esse mundo fora, cidadãos em dívida como ele, honestos e cumpridores, esbracejam, felizes, a provisionar. Aleluia!
Entretanto, reconhecido, regista a aprendizagem da palavra mágica que, até este dia, não fazia parte do seu mísero léxico: provisionamento. A moral da história é, por isso, de natureza linguística e gramatical. Sibilinamente casta, como se impõe. E nós agradecemos.
* Baseado em factos verídicos.
Simulacros
A veneração dos simulacros — eis uma definição possível para a ideologia que passou a conduzir os movimentos de identificação das massas. Daí nascem os políticos apostados em redifinir a nossa relação com a verdade. Ou os futebolistas promovidos e adorados como encarnação imaculada da identidade nacional. Ou ainda Michael Bublé, feliz pela sua patética imitação dos cantores do Rat Pack. A felicidade tornou-se mesmo o simulacro perfeito — repare-se como todos os dias, em algum ecrã de televisão, há alguém preocupado com os impasses da nossa existência. Quem os convocou?
"Influencers"
As contas de Instragram dos chamados "influencers" sobrevivem através da pandemia. Em boa verdade, parecem até ser potenciadas pela situação: o homem/a mulher protagonista multiplica as suas influências para uma plateia virtual que, através de mensagens de obrigatória celebração, encontra as imponderáveis justificações para determinados gestos de consumo — dos mais recentes modelos de sapatos ou malas de viagem até à filosofia requentada de decrépitos acessos de nostalgia "new age".
O resultado envolve qualquer coisa de infinitamente triste: o protagonista funde-se por completo com o produto, muito para lá da condição convencional de mensageiro ou promotor. No limite, o protagonista é o produto.
Sobre as jovens mulheres que desempenham tais papéis, não há qualquer protesto feminista, nem sequer uma discreta perturbação anímica — como se o feminismo tivesse esquecido as suas Beauvoir, reais e simbólicas, reduzindo todas as relações humanas ao respectivo enquadramento legal (cuja importância não está em causa). Se isso serve de consolação, lembremos que a situação do lado masculino não é mais edificante. E convenhamos que é sempre mais cómodo proclamar que Sartre era uma besta.
8 de setembro de 2020
Devushkin
Por cada nova carta de Makar Devushkin à sua Varvara Alexeyevna (Varenka, Varenka!), há qualquer coisa de imponderável, mas também de estranha fisicalidade, que nos pode levar a desconfiar de todas as suas palavras, confissões e utopias. Como se a miséria da sua existência induzisse um traço de cinismo moral. Somos nós que somos ainda mais cínicos? Ou Dostoievski que possui acesso à maquinaria secreta dos laços humanos, por isso mesmo descrendo de tudo e de todos?
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