31 de maio de 2020

World

Fado, escreve-se na nota anterior. Fado? Como foi reconvertida a sua memória do século XX? Dois acontecimentos deste século pontuam tal reconversão: primeiro, a normalização do contrabaixo no espaço da guitarra e da viola; depois, o reconhecimento da "canção nacional" como Património Imaterial da Humanidade. Dir-se-ia que o primeiro acontecimento liberalizou a austeridade do século anterior, tendo o segundo gerado uma nova e, sem dúvida, mais dinâmica conjuntura comercial. Simbolicamente, o imaginário da casa de fados cedeu e acedeu, assim, ao turismo cultural da música world e só mesmo por insensatez poderemos minimizar os ganhos de tão ampla geografia. Resta saber se a sensatez é uma postura adequada para compreender o fado.

Deus e o Diabo

A noção de que vamos sair "melhor" (ou "pior"...) desta situação de pandemia fundamenta-se numa espécie de voluntarismo infantil com que algumas almas caridosas tentam apaziguar as dores do seu semelhante. Nada disso é novo no nosso mundo mediático (neste caso, o adjectivo mediático parece mesmo condenado a ser uma dramática redundância): o sofrimento começou por ser gerido como isco de audiências, para passar a ser encarado como item obrigatório do BI de cada cidadão. O que, apesar de tudo, introduz uma nota diferente na actual conjuntura é a ânsia determinista que perpassa na invocação — de Deus ou do Diabo — que leva a justificar essa espera de qualquer coisa de "melhor" (ou "pior"...). Dir-se-ia que vivemos de tal modo afogueados em "informação" que a sua abundância adquiriu o poder — divino ou diabólico — de materializar as nossas vidas individuais e colectivas num irrepreensível destino. Por alguma razão, a proliferação de "novos" fadistas tem feito o que pode para descaracterizar o próprio Fado: o destino já não é um fantasma existencial, apenas uma miragem com boa cotação mediática.

30 de maio de 2020

Mitologias

Na mitologia dos Descobrimentos, aprendemos que, sob a égide do Infante D. Henrique, os portugueses contemplaram o mar, invocaram a protecção divina e, em frágeis embarcações de madeira, decidiram navegar até às costas mais distantes. Neste mundo pandémico, os seus herdeiros já não navegam. Marcados pelas angústias da quarentena, apresentam-se em fato de banho, de óculos escuros e, sugestiva coincidência, também contemplam o mar: são personagens emblemáticas das notícias televisivas, proclamando a sua ânsia de praia, sol e sardinhas assadas, não necessariamente por esta ordem — mostram-se radiantes, por vezes eufóricos, mas são uma catástrofe mitológica.

A nitidez da morte

A certeza de que qualquer corpo pode estar infectado apaga as diferenças entre os corpos. Como se cada um de nós não passasse de uma derivação orgânica de um corpo imenso, dir-se-ia social e anónimo (ou emblemático de um novo anonimato social), que dispensa qualquer tipo de atenção às singularidades individuais. No plano simbólico, o efeito deste estado de coisas pode ser muito mais duradouro do que a própria pandemia: o valor de viver em comunidade já não se desenha como um imenso puzzle de muitas peças diferentes porque, no limite, a comunidade se define pelos números que sustentam a contabilidade de infectados, recuperados e falecidos. É uma árdua maneira de reaprender a nitidez indizível da morte. E talvez também uma ferida insanável no desejo de viver.

Sono, sonho

Sinais dos tempos. Ou tempo cujos sinais não sabemos decifrar. A vida sonhada vai adquirindo uma evidência que, antes, parecia sempre anulada pela circunstância do sono — o sonho era apenas uma derivação inconsequente, ainda que perversa, da nossa consciência. Agora, o sonho vence a irrisão do próprio sono e impõe-se como implacável reconfiguração de memórias, revisitadas em narrativas de acelerada nitidez, mesmo quando as identificamos como transfigurações ficcionais. Talvez que a pandemia esteja a abalar as fronteiras daquilo a que insistimos dar o nome de real, condenando-nos a uma orfandade simbólica, porque carente de qualquer forma de destino. Em boa verdade, será apenas o retorno do recalcado à nossa civilização iludida por muitas gratificações instantâneas: nem mesmo o sono consegue silenciar as manifestações da nossa vulnerabilidade. Deixámos de ter medo. Aliás, o medo deixou de ser uma coisa que se "tem", anunciando-se, a cada um de nós, no torpor do sono, na luz coada do sonho, como o gémeo que insiste em não querer nascer.

28 de maio de 2020

Back to the future

A pandemia gerou um perverso efeito mediático, rasurando da actualidade todos os temas que não tivessem a ver com o enfrentamento da doença, suas componentes médicas e incidências políticas? Talvez. E talvez fosse tão compreensível quanto inevitável. Mas agora tudo acabou. Podemos, finalmente, voltar a investir os nossos melhores dotes filosóficos na discussão dos mais graves problemas culturais que tanto nos preocupam. Primeiro tema, incontornável, decisivo, angustiante: Bruno de Carvalho tem ou não condições para voltar a candidatar-se à presidência do Sporting?

27 de maio de 2020

Gadgets

Promover o regresso às salas de cinema é uma tarefa tão meritória quanto ciclópica. Afinal de contas, desde que os filmes passaram a existir como ficheiros (legais ou pirateados, para este efeito vai dar ao mesmo), surgiu um novo modelo dominante de espectador. É um egoísta sem memória histórica: este filme é "meu", posso vê-lo aos fragmentos, de trás para a frente, posso até usar um programa de montagem e fazer clips de breves segundos para meter no YouTube... Em boa verdade, já não é um espectador porque desconhece o prazer, e também as nuances cognitivas, da duração — um filme é um acontecimento no tempo, não um gadget para usar e deitar fora.

O poço

No turbilhão de (des)informação em que vivemos, alguém diz, publicamente, que a avaliação das condições de vida nas prisões tem sido menos rigorosa do que a observação dos campos de futebol para que os jogos se reiniciem... Para lá das eventuais precisões de que a "comparação" carece, o simples facto de a afirmação cair, silenciando-se, no poço sem fundo da actualidade mediática, é perturbante.

26 de maio de 2020

O cultural

"Falemos agora de cultura..." Como se se saísse da cultura para falar de outras "coisas". Como se o cultural não fosse a abrangência da história que vivemos, dos valores que a habitam, das hipóteses de vida que, todos os dias, dentro dessa história, nascem e morrem, morrem e nascem...

25 de maio de 2020

Dominação cultural

Perpassa pelos meios de comunicação audiovisuais uma interrogação que, em boa verdade, ninguém formula. A ponto de a sua lógica contaminar os que nem sequer têm consciência da sua existência. A interrogação é esta: quando fará sentido "desconfinar" a própria informação e, para lá da pandemia, dar destaque aos chamados temas culturais? Seja como for, não há interrogação paralela para as matérias futebolísticas. Dito de outro modo: a cultura dominante é o futebol.