9 de maio de 2020

Sistemas fortes

>>> O que é um sistema forte? É um sistema de linguagem capaz de funcionar em todas as situações, e cuja energia subsiste, seja qual for a mediocridade dos sujeitos que o falam: a estupidez de certos marxistas, de certos psicanalistas ou de certos cristãos não abala em nada a força dos sistemas, dos discursos correspondentes.

ROLAND BARTHES
in O Rumor da Língua
Edições 70, Lisboa (1987)

8 de maio de 2020

Video

Multiplicam-se os gestos evocativos de outras pandemias. Ou melhor, de narrativas, sobretudo livros e filmes, que trataram histórias, personagens e contextos que possam ter algum valor catártico no nosso presente. Não vejo, não ouço, ninguém a lembrar os jogos de video como modelo de percepção que, de alguma maneira, nos possa acompanhar. O que não deixa de envolver um brutal sarcasmo: afinal, uma das formas de ficção que tantos consomem (milhões e milhões, garantem as estatísticas) não tem nada para nos dizer, algo que, pelo menos, nos recorde que a dimensão humana existe, persiste e resiste. Em boa verdade, tal silêncio não tem nada de surpreendente: o video como instrumento de projecção do jogador que vive no ecrã os combates de outros não passa de um artifício físico, pueril e redutor, que promove a confusão entre os gestos mecânicos de interacção com o ecrã e algum tipo de experiência realmente material. Há nesse esquema de consumo uma desumanização que, agora, surge exposta na sua patética inoperância comunicativa. Um livro não nos salva da pandemia, mas não deixa de ser um objecto palpável. Um filme não nos liberta do medo, mas nasce de algum desejo de olhar o mundo à nossa volta.

NOTA - Talvez que toda esta conjuntura, plena de componentes trágicas, nos obrigue a repensar os valores dominantes da chamada cultura popular.

5 de maio de 2020

Máscaras

Máscara. Promessa de sensualidade: quem está, ou que está, por trás daquela barreira? E insinuação inquietante: o nosso património narrativo garante-nos que é a morte essa entidade que sempre se apresenta mascarada. Vivemos, assim, o avesso da utopia romântica: a ocultação do rosto não envolve nenhuma transcendência, a imagem truncada do outro não passa de um aparato social que se confunde com a ameaça microscópica do vírus. Num mundo assim, não parece possível ensinar a beleza dos filmes de Murnau.

City Girl (1930)

Contra a comunicação

A. No nosso tempo social, que se pode fazer, que pode acontecer que não seja automaticamente "mobilizado" para funcionar como intervenção, declaração, tomada de posição, mensagem ou tribunal?

B. Onde nos conduz este bruaá colectivo, dominado pela obsessão de encerrar todos os gestos humanos em algum significado, supostamente transparente, que os congele como coisa unívoca e definitiva?

C. A utopia parece consistir, agora, em abrir espaços em que algo possa enquistar-se face à agitação circundante e nada significar, resistindo a ser instrumentalizado pela ilusão de que estamos sempre a comunicar. Subitamente, o silêncio pode ser revolucionário.

4 de maio de 2020

Mediatização

Há também uma pan-mediatização da nossa existência. Como se tudo o que é humano necessitasse de uma compulsiva configuração mediática para adquirir pertinência social. Daí nasce uma asfixia comunicativa que arrasta a noção de que nenhum laço humano é pertinente, porventura legítimo, se não se apresentar sancionado por algum discurso mediatizado ou mediatizável. Daí também que os discursos "especializados" tendam a encarar (ou a ser forçados a encarar) os domínios que abordam tendo como ponto de fuga a enunciação de uma qualquer dicotomia "positivo-negativo". Aquilo que quase todos os comentadores de futebol passaram a assumir — sancionar cada resultado como "justo" ou "injusto" — tende a ser uma matriz generalizada, ancorada numa omissão obscena. Assim, se é verdade que qualquer noção de justiça decorre de uma lei em que o colectivo se reconhece, está por esclarecer qual é a lei que transforma a vitória da "pior" equipa num resultado "injusto"... Será que passámos a habitar um mundo de tal modo normativo e normalizado que já não é possível jogar mal e ganhar um jogo de futebol? Barthes tem razão: há uma censura que impede de falar, outra que obriga a dizer.

3 de maio de 2020

Calendário

O efeito de desmembramento do calendário é tanto mais perturbante quanto, de uma maneira ou de outra, toda a vida social se fundamenta na previsão/organização de acontecimentos materiais que vão acontecer. Por mais que governos, empresas e trabalhadores refaçam agendas e relancem actividades, passámos a viver numa curva do tempo em que resistimos a olhar para trás, na certeza de que aquilo que se vislumbra em frente é sempre escasso e impreciso. Porventura intolerável, é o facto de isso implicar uma outra consciência da nossa condição de seres mortais. Intolerável ou criativo.

2 de maio de 2020

Castidade

Dir-se-ia que a assunção de uma visão política do mundo passou a ser entendida, apenas e só, a partir da possibilidade — encarada como uma forma suprema de liberdade — de os seus signos serem exibidos no espaço público, logo na paisagem mediática. Dir-se-ia também um entendimento casto da democracia. É esse o novo social, esquemático e infantil, agressivo na reivindicação, vazio no pensamento. Talvez ingénuo, o que lhe empresta uma aura de comoção.

1º de Maio

Instala-se alguma discussão, agitada e efémera, na sequência das comemorações do 1º de Maio. Por analogia ou contraste, a discussão envolve também as celebrações religiosas que os católicos podem ou não podem promover. Mesmo com pandemia, continuamos a viver numa sociedade em que as encenações colectivas são dirimidas como mera questão de ocupação dos espaços públicos — questão vital, sem dúvida, em particular no momento actual, mas que dispensa qualquer tipo de reflexão sobre aquilo que se encena. Sobre a sua historicidade.

Cientificamente
— feat. Miles Davis

Cenário de pandemia. Mãos potencialmente infectadas ou infectáveis. Quando alguém informa, cientificamente, e como argumento único, que usar luvas é irrelevante porque a nossa tendência é levar as mãos à cara... não seria mais razoável dizer que, mesmo com luvas, talvez seja melhor não tocar a cara com as mãos? Ou, talvez ainda melhor, tirar as luvas e pôr um pouco de Miles a tocar? Tocar.

1 de maio de 2020

A corrente do jogo

"Contra a corrente do jogo" — a expressão, consagrada nos comentários futebolísticos, é bem reveladora da ligeireza com que se encara a omnipotência do tempo. Dir-se-ia que quem a profere acredita que o jogo integra e, de alguma maneira, consagra um determinismo ("corrente") que a própria contabilidade dos golos só poderá e deverá confirmar.
"Hans Castorp já não sabia distinguir o «ainda» e o «de novo», de cuja mistura e confusão resulta o «sempre» e o «nunca», situados fora do tempo." Dito de outro modo: Hans Castorp não é comentador de futebol, não finge conhecer, porventura controlar, essa "corrente" cuja racionalidade lhe permitiria, talvez, ainda que por dramática ilusão, conceber a existência, a sua e a dos outros, como um mero decalque da linearidade do tempo.
De modo drástico, infinitamente perturbante, a doença põe à prova a nossa propensão para julgarmos que conhecemos e dominamos a arbitrariedade dos lances seguintes. Por uma razão que, em boa verdade, desafia o próprio entendimento do jogo. Essa razão diz-se por uma palavra austera, radical em todas as línguas: Morte, Muerte, Mort, Death, Tod... Daí o combate para que não estávamos preparados: lidar com a morte, apor algumas necessárias palavras à sua imponderabilidade, exaltando a vida. E reconhecendo que o desespero sintático que a morte instala nas narrativas da vida não se resolve denunciando o incumprimento da "corrente do jogo".