16 de junho de 2020

Espectadores e não-espectadores

Estranha percepção do cinema, do seu consumo e também da sua identidade. Por um lado, antes da pandemia, a sociedade estava alegremente dominada por uma visão festiva, porventura redentora, das plataformas de streaming. Nos últimos anos, nasceu mesmo um novo modelo de espectador (em boa verdade, trata-se de um não-espectador) que se distingue pela afirmação altiva de que "deixou de ir ao cinema" (o que, supostamente, o colocaria num patamar superior aos que mantêm tal "vício"); por outro lado, agora, a possibilidade de regresso às salas é maioritariamente noticiada — e, por certo, como tal encarada pelo público anónimo — como o retorno a uma pureza ideal, fundadora do próprio acto cinematográfico.
Em qualquer caso, tais contrastes são sintomáticos da metódica desvalorização da cinefilia: passamos o tempo a especular sobre os modos de acesso aos filmes, mas falamos muito pouco sobre eles e pensamo-los ainda menos.
Há dias, numa dessas plataformas, na zona de comentários a um clássico da história do cinema, alguém deixou a indicação de que se trata de uma "seca": a palavra usada é mesmo "secante" — sem mais, a gloriosa arrogância do nada. Quando a democracia acolhe, assim, a ignorância, as pessoas sentem-se felizes e realizadas — e não querem conhecer o que quer que seja.

PS — Além do mais, é incrível que uma entidade comercial — salvo melhor opinião, trata-se mesmo de vender filmes — acolha, assim, tamanha grosseria, nem sequer defendendo o seu produto da mediocridade "social" (convém sublinhar a transformação lexical: hoje em dia, a maior parte dos negociantes de cinema desconhece a palavra "filmes", só falam em "produtos").

14 de junho de 2020

Um conto moral

Como é que foi possível chegarmos a um ponto em que Donald Trump governa um país — e o mundo — através da televisão? Eis uma pergunta com que a televisão não se confronta. Pior um pouco: os políticos nem sequer conseguem conceber a possibilidade de a formular. Enfim, há pelo menos um político que sabe que a pergunta envolve uma lógica irredutível: o próprio Trump, claro.

13 de junho de 2020

Estátuas

Numa sociedade global em que a relação com o(s) outro(s) se pode confundir com a banal partilha de polegares ao alto, a destruição das estátuas é apenas um sintoma mais do triunfo de um niilismo sem programa. Não, a culpa não é do sr. Mark Zuckerberg, até porque o seu sistema de comunicação tem dado um contributo decisivo para diluir qualquer noção de responsabilidade social. Criámos, ou deixámos que ele criasse, um mundo em que tudo se esgota no flash do momento presente, sem que haja espaço para as irredutíveis singularidades da memória. Por que é que haveria espaço para as estátuas? A estupidez da sua destruição corresponde ao comportamento normal de uma comunidade que foi perdendo qualquer vínculo com a densidade e a complexidade da história.

12 de junho de 2020

A fala virtual

Difícil de descrever, e também de apropriar. Difícil distanciarmo-nos, de tal modo o seu uso se normalizou como matriz universal de "comunicação". É um tom de voz, uma velocidade, monótona mas precisa, de débito das palavras, um teatro de inquestionáveis certezas. Chamemos-lhe: falar virtual. Está por todo o lado: desde as mais disparatadas análises de filmes colocadas no YouTube até aos noticiários televisivos. Dir-se-ia que o enfraquecimento das ancestrais virtudes do diálogo — dois seres humanos, frente a frente — está a ser compensado pela pobre ilusão "científica" de uma fala que, apresentando-se histericamente condensada e liofilizada, nos dispensa de qualquer actividade ou risco de pensamento. Os médicos deviam integrar o fenómeno nas suas investigações sobre toxicodependência.

11 de junho de 2020

À escuta

O que é escutar, perguntou a criança.
Cala-te, respondeu o professor.
Ah, já compreendi.

Loop

Efeito perverso da pandemia: não havendo espectadores nas bancadas do futebol, há transmissões televisivas em que os minutos finais dos jogos são acompanhados (?) por uma miserável música electrónica, em loop. Em boa verdade, esta agressão sonora pertence a um mundo, com ou sem pandemia, que infantilizou — e, desesperadamente, tenta estupidificar — os espectadores. O conceito (?) obedece a um valor (?) comunicacional segundo o qual a atenção humana necessita de ruído para se sustentar. Na prática, seremos bons espectadores se nos entregarmos à confusão sonora, acabando por não prestar atenção a nada.

10 de junho de 2020

A ordem social

A ideia segundo a qual somos uma sociedade porque soubemos criar uma ordem (social, justamente) vai a par da noção de que todos, dos elementos policiais aos cidadãos comuns, passando pelos meios de comunicação, devem contribuir para a preservação dessa ordem. Curiosamente, semelhante aparato "filosófico" consagra uma lógica tecnocrática na percepção das nossas próprias vulnerabilidades enquanto colectivo: se a ordem apresenta impasses ou fissuras, isso quer dizer apenas que a fiscalização falhou. Mesmo que deus já não seja convocado, a ordem paira sobre nós como intocável transcendência. Por alguma razão, o video-árbitro triunfou, socialmente, como encarnação divina do "olhar" e oráculo da "verdade": ficamos felizes por poderemos dizer que aquele jogador estava fora de jogo porque a sua anca surgiu 3cm à frente do pé esquerdo do adversário... Quando podemos exibir uma medida, sentimo-nos realizados. E reintegrados na ordem.

9 de junho de 2020

Em análise

Qualquer tema da actualidade parece só adquirir pertinência, não exactamente através das singularidades das suas componentes, mas pelas análises que pode desencadear. Entenda-se: o acontecimento termina e, no instante seguinte, as rádios e as televisões entram em modo de análise. Reservar um tempo para pensar? É caso para dizer: nem pensar... O que mais conta é anular qualquer intervalo entre o "facto" e a sua análise, como se todos tivéssemos medo de habitar alguma duração que nos possa fazer sentir que compreender o mundo é uma tarefa árdua, exigente, formalmente nunca encerrada. Analisar passou a ser tão só manter o movimento. Movimento de quê? — eis a pergunta que quase todos deixaram de formular.

8 de junho de 2020

62.984.828

Com o agravamento da situação social nos EUA, proliferam as análises, os discursos e as paródias anti-Trump. Ainda bem. O misto de grosseria, demagogia e provocação que o 45º Presidente da grande nação americana "normalizou" na cena política gera uma inquietação que, sendo também política, envolve o futuro moral e cultural de todo um país.
O certo é que, para lá das muitas nuances de análises, discursos e paródias prevalece uma fixação mecanicista na definição do próprio objecto de tanta reflexão. Assim, conscientemente ou não, a maior parte das intervenções depende de uma interrogação unilateral: que fazer para contrariar o efeito-Trump? Ou seja: como derrotar Donald Trump nas próximas eleições?
Dir-se-ia que este é apenas um prolongamento discursivo do que, ao longo de 2016, aconteceu nos mais diversos contextos mediáticos (incluindo muitos dos mais sérios e exigentes). Nessa altura, quanto mais disparatada ou ofensiva fosse cada intervenção pública de Trump, mais e maior eco noticioso encontrava — como se os democratas acreditassem que a mera "informação" possui a virtude de desmontar e desmacarar os líderes populistas. Agora, o falhanço de tão ingénuo liberalismo ecoa na ânsia com que se relança ad infinitum uma espécie de oração profilática, certamente habitada por riquíssimas formas de pensamento, desejando que "algo" impeça a sua reeleição.
Não é apenas unilateral esta saga de muitos e comoventes desesperos. É também unívoca, consumando, afinal, a vontade primordial de Trump: apresentar-se e ser visto como protagonista de uma peça a cuja representação todos os outros actores faltaram — À Espera de Godot em monólogo, esquizofrénico e, por isso mesmo, triunfante.
Quase ninguém desce à terra da artitmética, lembrando a base de apoio de Trump. Voltar a lamentar o facto de, a 8 de Novembro de 2016, Hillary Clinton ter obtido quase mais 3 milhões de votos que o seu adversário não passa de um choro piedoso, porventura consolador.
A regra do jogo é clara: o Presidente é eleito pelos votos do colégio eleitoral, não pela soma dos votos individuais que recebe. Dito de outro modo: quase ninguém parece querer enfrentar a mais objectiva das realidades. A saber: 62.984.828 pessoas votaram em Trump. Enfrentar a tacanhez de pensamento de Donald Trump é relativamente fácil; lidar com o que pensam, desejam e imaginam mais de 62 milhões de americanos será um projecto político de radical dificuldade. Joe Biden é apenas um nome respeitável, um concorrente sério e uma calorosa personalidade — não é esse projecto.

Placebo

E se as mensagens audiovisuais fossem um placebo colectivo?