30 de junho de 2020

Virose

Novo vírus: o autocarro do Benfica circula por vários canais televisivos — em apoteótico directo, confirmando que os autocarros das equipas de futebol se tornaram uma pandemia mediática (aliás, convém precisar: os autocarros das únicas três equipas de futebol que existem no país).
Entretanto, será que alguém está a estudar uma vacina?
Em todo o caso, ficamos a saber do drama profundo que pode alterar de forma radical a história da nação: à espera do veículo, uma dezena e meia de adeptos manifestam a sua indignação. Há mesmo duas palavras que foram apropriadas pelo mundo do futebol, só aí adquirindo a sua incontestável pertinência social: sofrimento e indignação, respectivamente de jogadores e adeptos.

29 de junho de 2020

A coisa

Mais de 10 milhões de infectados em todo o planeta. A crueza abstracta dos números, incontornável e indispensável, arrasta também um efeito paralisante — dir-se-ia que a sobrevivência se transfigurou num trabalho para contrariar a contundência da estatística. Como baixar os números sem alienar a dimensão humana da coisa?

28 de junho de 2020

Política e medicina

Dois limites realmente drásticos parecem definir o quadro realista e simbólico em que estamos a viver a pandemia: de um lado, sobretudo com Donald Trump, parece não ser possível ir mais longe na consagração de uma irresponsabilidade que, antes de ser inevitavelmente política, é tragicamente humana; do outro, a instauração de um discurso global, globalmente vigilante, dir-se-ia panóptico, de alertas médicos leva a perguntar se a política não estará a ser co-optada e subsumida pela medicina. Resta saber se uma coisa e outra se alimentam e reforçam, nem que seja através de formas perversas de coabitação mediática.

Efeitos secundários

A naturalidade sem mácula, por vezes em forma de anódino e autoritário naturalismo, passou a ser uma espécie de efeito secundário dos discursos "especializados". Poderemos ser tentados a detectar em tal fenómeno as marcas de narcisismos invulgarmente delirantes, encontrando na exposição mediática, não uma forma de satisfação, mas a patética confirmação da sua identidade imaginária. Em todo o caso, tal fulanização corre o risco de passar ao lado da dimensão mais funda do fenómeno, isto é, do verdadeiro magma ideológico que sustenta a proliferação de "especialistas" — um pouco como a actual miséria fadista que faz com todos, dos mais talentosos aos mais medíocres, ao evocarem o nome "Amália", adquiram uma protecção automática para a consumação dos mais duvidosos projectos artísticos. O que acontece envolve uma contínua, determinista e emocionalmente muito agressiva organização "temática" de todos os domínios da vida social.
Um velho exemplo é esclarecedor: sempre que um filme português tem uma discreta performance comercial (e é quase empre), rapidamente se esquece o filme ("bom" ou "mau", não é isso que está em causa) para se discutir a magna questão do "cinema-português-que-não-tem-público". Uma qualquer super-produção com a marca de Hollywood pode ser um aparatoso desastre comercial, mas ninguém, nunca, lança qualquer discussão da mesma natureza.
Assim, se alguém se suicida, todos os circuitos de (des)informação fazem o elogio do morto para, logo a seguir, lançar os parâmetros compulsivos de uma discussão "alargada" sobre o suicídio. Com uma derivação local: porque é que os portugueses se suicidam?
O "tema" do suicídio é um triste espelho da nossa insensibilidade colectiva. Desde logo, porque já não sabemos aceitar o silêncio com que a memória do próprio suicida nos convoca. Depois, porque nem sequer conseguimos respeitar as trágicas singularidades de cada história pessoal — aquele suicida acaba por ser tratado de modo instrumental, transfigurando-se em pretexto "social" para nos entregarmos à discussão paternalista de todos os suicidas.

27 de junho de 2020

Bruno Lage

Felizmente, o país conseguiu libertar-se dos dramas e medos da pandemia. Mas por um preço cruel. Agora, vivemos acossados pela premência de um problema para o qual não estávamos preparados, mesmo multiplicando planos de assistência e profilaxia. Está em jogo a nossa sobrevivência como entidade histórica e projecto colectivo. A saber: o país sofre por não saber qual será o destino de Bruno Lage. O próprio parece gostar do protagonismo, mas também sofre, hélas!

26 de junho de 2020

Contágio

O seu amor era viral.
Foi acolhido com máscara.
Morreram do contágio.

Festas de contágio

As notícias, nacionais e internacionais, das festas de contágio, promovidas e protagonizadas por gente sem o mais débil resto de consciência social, são um sinal esclarecedor de uma nova regra. Não são, de facto, uma excepção, mas o triunfo de uma sinistra regra. Estranhamente ou não, é uma regra de trágica solidão. A saber: perante a fragilização de todos os modos de definição e afirmação individual no seio de algum colectivo — família, escola, religião —, os novos eremitas da doença tentam compensar o seu desespero com a estupidez delirante das suas festas. Celebram uma miserável utopia que consiste em sentir o bafo dos outros, beber álcool e dar pulos — tudo isso será ampliado pelas inevitáveis imagens televisivas, de outro modo festivas, também perversamente virais.
No limite, nenhum desses patéticos cidadãos em festa reconhece a inscrição da morte na sua trajectória de vida — é bem verdade que a negação da morte habita todas as narrativas de redenção romântica, mas aí a doença era outra.

23 de junho de 2020

Os novos bárbaros

Pandemia? Qual pandemia? A caminho dos 10 milhões de infectados? Who cares?
Reunem-se no meio das ruas, escutam DJs e exibem copos com bebidas — os novos bárbaros, educados pelo (e para o) social em rede não têm qualquer noção, perspectiva ou valor do que seja viver em sociedade. A sua arrogância leva-os a apresentarem-se como arautos de uma estupidez colectiva a que dão o nome de liberdade. Tristeza suprema: acreditam naquilo que dizem.

22 de junho de 2020

Connaît pas

Os ajuntamentos nas ruas de diversas cidades europeias são tristemente reveladores da quebra de um laço clássico: o dos cidadãos com o Estado. As celebrações de um individualismo libertário (bela palavra, agora abastardada) contaminado pelo vale-tudo do novo social — e das suas redes — são a expressão muito directa de um vazio existencial que já nem sequer possui qualquer réstea filosófica de niilismo. Apenas essa estupidez colectivizável segundo a qual o ruído desagradável, literal ou simbólico, que um qualquer possa produzir encontra sempre eco num qualquer colectivo de irresponsáveis.
Importa acrescentar algo de muito objectivo: a estreia de um grande filme (exemplo actual: Da 5 Bloods, de Spike Lee) terá sempre, mas sempre, um milhão de vezes menor cobertura mediática que duas ou três centenas de pessoas aos gritos, de copo na mão, a proclamar que o COVID-19... connaît pas.

20 de junho de 2020

Futebol & Estado

As imagens fotográficas e televisivas pontuaram toda a semana, numa espécie de parasitismo mediático que foi deslizando da surpresa para o choque, passando pela perplexidade: as três principais figuras do Estado português — Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro — acharam por bem protagonizar um evento de elaborada teatralidade para dar conta da realização em Lisboa da fase final da Liga dos Campeões. Como é possível que em tempos de tantos dramas tão difíceis de enfrentar, o aparelho estatal convoque toda a sua autoridade simbólica para se apresentar como arauto e garante de um evento futebolístico?
Claro que há argumentos de natureza económica e promocional que os políticos sempre aplicam para explicar este seu empenhamento. E convenhamos que, em boa verdade, não parece possível desmentir a justeza dos números eventualmente associados a tais argumentos. Aliás, corrigindo: qualquer discussão nessa base reforça o equívoco segundo o qual tudo se reduz a um misto de tecnocracia e marketing.
Acontece que aquilo que se discute e questiona não são números, mas formas de vida — formas de conceber e encenar a nossa existência de cidadãos portugueses. Ou ainda: porque é que o futebol passou a ser tratado, politicamente tratado, entenda-se, como o palco principal da nossa afirmação enquanto país, da nossa definição enquanto povo? Eis uma pergunta que valeria a pena integrar nos próximos debates dos actos eleitorais.